A “mama gorda”

Actualização: Tive oportunidade de ir navegar pela costa próxima do Sotavento, e ver “finalmente” o “Cerro da Mama Gorda”. Fica aqui o post referente com as fotos do dito “cerro”.

Quando se navega a poucas milhas da costa, esta apresenta relevos que podem ser usados pelos navegantes como pontos de referência. Aqui na Costa Algarvia do Sotavento, a colina sobranceira mais próxima do mar é sem dúvida o Cerro de São Miguel que, dos seus perto de 400 metros de altitude, é praticamente visível em terra e no mar, provavelmente conhecido desde tempos imemoriais quando imensos povos percorreram estes mares, e as suas embarcações nunca perdiam a costa de vista.
Muito provavelmente, a estes relevos notáveis eram atribuídos nomes e provavelmente dedicados a divindades relacionadas com o vento ou outras(e.g. Cabo de São Vicente, considerado Promontorium Sacrum pelos romanos). No caso do Cerro de São Miguel, também chamado de Monte Figo na antiguidade, baptizando a serra de constituição calcária do qual o Cerro é a sua elevação mais importante, um artigo da autoria do geógrafo Luís Fraga da Silva já discute a importância que essa elevação representaria para os navegadores na antiguidade clássica.
O tema que quero apresentar hoje é referente a uma expressão usada para indicar a “Serra de Tavira” partir do mar desde, pelo menos, o século XVII, quando “Mama Gorda” aparece em pelo menos dois livros, um da autoria do geógrafo português Luís Serrão Pimentel e mais tarde por seu filho Manuel Pimentel :

Entre estes cerca de 30 anos vemos e entre pai e filho que foram ambos cosmógrafos reais de Portugal há de assinalar mais pormenores em comum do que as diferenças: em primeiro lugar, Tavila passa a chamar-se Tavira . E, em segundo lugar, em 1712, Manuel Pimentel assinala a dificuldade da entrada no Porto de Tavira devido à existência de barras cuja localização se encontra constantemente em movimento (facto referido mais tarde por Sande de Vasconcelos nas notas das suas cartas de Tavira). Mas os nomes dos pontes de referência relativos aos relevos são os mesmo: Monte Figo, Monte Pequeno (Cerro da Cabeça, a leste do Cerro de São Miguel), e novamente a tal “…Mama Gorda, a qual serra vay correndo ate Crastomarim“, e neste ponto o texto do filho Manuel Serrão é “ipsis verbis” o do pai. Impõe-se então aqui um mistério a resolver, qual seria o monte conhecido pelos mareantes como “Mama Gorda”? Ora, se Monte Figo e Monte Pequeno não oferecem lugar a dúvidas, então a que monte corresponderá a tal “Mama Gorda” assinaladas por Serrão pai e filho !?

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A Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Tavira

No Algarve o culto de Conceição chegou no século XVI tendo sido construídas duas igrejas em zona rural nos termos de Tavira e Faro, de tal forma que se converteram em topónimos dos sítios onde foram erigidas. Nomeadamente no caso  de Tavira, esta criação teve lugar em 1518, data da constituição da freguesia coincidente com…

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Tavira foi publicado originalmente aqui

No Algarve o culto de Conceição chegou no século XVI tendo sido construídas duas igrejas em zona rural nos termos de Tavira e Faro, de tal forma que se converteram em topónimos dos sítios onde foram erigidas. Nomeadamente no caso  de Tavira, esta criação teve lugar em 1518, data da constituição da freguesia coincidente com a criação da dita paróquia.

Não se tem a certeza de que seja realmente de 1518, sendo deste ano o registo mais antigo da mais antiga visitação à referida igreja, então chamada de “ermida” referindo-se  a ela como “Ermida de Nossa Senhora da Conceição da Gomeira”:

Uma Casa nova, grande e muito boa, que ora se faz, e não está ainda acabada. E a capela-mor dela forrada de olivel [madeira de oliveira], e as paredes são de pedra e cal. E tem um altar de alvenaria e sobre ele a imagem de Nossa Senhora, de vulto, boa  e nova, dentro de um retábulo pequeno, de portas, e dois Meninos Jesus. E o corpo da igreja é de uma só nave (…) e metade dele está já forrado de olivel  coberto de telha, e sobre a porta principal está um campanário em que está uma campa (sino) grande  e novo (…). Achámos por informação que isto tomámos, que a dita Ermida foi começada de edificar por Rui Calvino e Gil Gonçalves da Costa e João Rosado, os quais com suas esmolas se com as esmola s dos fregueses e moradores dos arredores da dita Igreja a fizeram como ora está, e André Dias Parrado, mordomo que ora é (da Ermida), também de princípio com os sobreditos a ajudou a fazer(…).  E o capelão  da Igreja (ou seja, o pároco) Rodrigues Anes, ajudou a fazer a dita casa”.

Estes nomes aparecem referidos nas atas de vereadores de Tavira, nomeadamente Rui Calvino, Gil Gonçalves da Costa e João Rosado foi procurador do concelho  de Tavira em 1500.

A versão original da igreja, teria, portanto, além do pórtico actual, mas dispunha apenas de uma nave, como ermida que era. Anica propõe que o início da construção se tenha dado por volta de 1508.

Visitações posteriores relatam novos acrescentos à versão da igreja relatada em 1508: em 1554 relatam que a mesma era abobadada e a capela mor media vinte  e dois palmos de altura e largura, sendo quadrada. Mais acrescentam que a porta principal abria para Sul, era de pedraria de ponto de quarto portados  e tinha dezassete palmos  de altos e nove palmos de largo. Relatavam também a existência de uma porta lateral (actualmente existem duas)l. Em 1565,  a Igreja continua a ser relatada como de apenas uma nave. Continuar a ler “A Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Tavira”

O culto da Concepção de Santa Maria

Para se falar da Igreja Paroquial da actual freguesia ou União de Freguesias, será preciso fazer uma breve referência à manifestação mariana da “Nossa Senhora da Conceição”, que de entre todas as interpretações e variantes do culto mariano, foi a que em Portugal ganhou mais apoio junto da nobreza e da realeza, tendo sido erigida…

O culto da Concepção de Santa Maria foi publicado originalmente aqui

Para se falar da Igreja Paroquial da actual freguesia ou União de Freguesias, será preciso fazer uma breve referência à manifestação mariana da “Nossa Senhora da Conceição”, que de entre todas as interpretações e variantes do culto mariano, foi a que em Portugal ganhou mais apoio junto da nobreza e da realeza, tendo sido erigida a Padroeira da Nação no século XVII, poucos anos após a Restauração.

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Imagem da Conceição de Vila Viçosa em procissão

O conceito de Conceição

De realçar que a Conceição tem a ver a concepção de Santa Maria, mãe de Jesus, como entidade divina livre do pecado original, ou seja, está relacionada com o suposto nascimento de Santa Maria, não tendo qualquer ligação como poderia ser interpretada, com a data do Natal, que se assinala dali a duas semanas. Não se trata da anunciação ou visitação do Anjo que anunciou a Maria que seria Mãe de Jesus. É, isso sim, o nascimento de Maria enquanto filha de Santa Ana, podendo ser visto como a data de aniversário de Maria.

Esta data portanto assinala o nascimento da Virgem como a mãe do Senhor, tendo a sua concepção, à semelhança do próprio Jesus, sido entendida como pessoa livre de pecado. Relativamente se, à semelhança de Jesus, não teve pai terreno, nada é dito.

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A Paragem Ferroviária do Pinheiro

Encontrei na Wikipédia, uma menção a um “Apeadeiro do Pinheiro“. De acordo com a tabela de preços datada de 1906, aquando da inauguração do troço ferroviário de Tavira a Vila Real, este apeadeiro devia ser ao invés uma “paragem” (que aparece com um “P” a seguir ao nome) ficava entre as estações de Conceição e…

A Paragem Ferroviária do Pinheiro foi publicado originalmente aqui

Encontrei na Wikipédia, uma menção a um “Apeadeiro do Pinheiro“. De acordo com a tabela de preços datada de 1906, aquando da inauguração do troço ferroviário de Tavira a Vila Real, este apeadeiro devia ser ao invés uma “paragem” (que aparece com um “P” a seguir ao nome) ficava entre as estações de Conceição e Santa Rita, junto de uma Quinta com o mesmo nome. Não tenho conhecimento de nenhuma quinta com esse nome na zona rural envolvente da linha do comboio.

Tabela de preços praticada entre as estações da linha do Algarve (1906). É feita a referência a na altura o “apeadeiro” ser apenas uma paragem, a passar ser apeadeiro no futuro.

A estação de Santa Rita fica junto do sitio da Caiana, lugarejo junto da EN125 aonde passa o Ribeiro do Lacem com vendas e cafés. Portanto, este Apeadeiro haveria de ficar entre a estações da Conceição e de Santa Rita. Antigamente a EN125 atravessava a linha de comboio numa passagem de nível, cujas ruínas da casa do guarda ainda se podem ver do viaduto que foi construído nos anos 60. Continuar a ler “A Paragem Ferroviária do Pinheiro”

A “Azinhaga dos Defuntos”

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Uma muralha dentro da propriedade vizinha…

Aproveitando o facto de hoje ser o “dia dos mortos”, uma festividade que pouco ou nada tem a ver a Liturgia Católica (mas então o carnaval tem?), aproveitei para vir falar dum velho caminho, quiçá esquecido dos mais jovens, que era chamado de “Azinhaga dos Defuntos”.
No passado dia 16 de Setembro, domingo, de manhã, aproveitei para ir ver no terreno se ainda existiam vestígios da chamada “Azinhaga dos Defuntos”, um caminho rural da freguesia, que segundo tinha ouvido contar por um amigo de Cabanas – ( o “grande” Hermínio Afonso) que viveu a infância na antiga fazenda do Benamor, onde o avô era caseiro – que a delimitava pelo lado leste. Dizia ele que tinha esse nome pelo facto de as pessoas da Serra transportarem por ele os corpos dos seus entes queridos antes de lhes darem os últimos sacramentos na Igreja, celebrarem o seu funeral e transportarem-no para a sua derradeira morada. Ora sendo a Conceição freguesia desde o século XVI e a Quinta do Benamor também antiga, terão decorrido uns quatrocentos anos em que esta “azinhaga” (ou caminho rural) deve ter sido efectivamente usada, perdurando na memória oral colectiva da população a existência desse caminho. Acontece que, ao chegar à povoação, atravessava por um vau o Ribeiro da Conceição para a outra margem (uma vez que o leito do ribeiro vem de nordeste). E dizia mais o meu velho amigo que esse caminho depois continuava pela margem esquerda do ribeiro até terminar na Conceição junto da chamada “Casa Velha”, um estabelecimento situado logo a seguir a passar por cima do ribeiro, do lado norte da Rua 25 de Abril.

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Praça da República ao longo dos últimos 150 anos

Esta galeria  mostra como foi a actual Praça da República, centro de Tavira, com os Paços do Concelho e a Ponte Romana, desde 1880, grosso modo, ainda em monarquia liberal (chamava-se praça da Constituição) até aos anos 60-70  do século XX (data da construção da ponte da EN125 que tirou o trânsito do centro da…

Praça da República ao longo dos últimos 150 anos foi publicado originalmente aqui

Esta galeria  mostra como foi a actual Praça da República, centro de Tavira, com os Paços do Concelho e a Ponte Romana, desde 1880, grosso modo, ainda em monarquia liberal (chamava-se praça da Constituição) até aos anos 60-70  do século XX (data da construção da ponte da EN125 que tirou o trânsito do centro da cidade). Tentei dar o que me pareceu ser a ordem cronológica mais intuitiva, sem na posse efectiva de qualquer espécie de datas.

Actualizei a galeria com fotos a cores para ficar com a galeira mais “completa”, chegando até aos dias de hoje, e das alterações que sofreu com o “efeito Macário”.

 

 

Fontes de foram obtidas as fotos:

 

 

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Jornal "Povo Algarvio"

Curioso tenho eu andado a querer saber mais de cada uma das pontes de Tavira. Da romana, já muito se escreveu e disse, que não é romana, se bem que a forma dos seus arcos ainda faz lembrar as típicas pontes romanas, que foi alvo de sucessivas reconstruções ao longo de séculos, etc.
Das outras pontes, as que foram construídas já neste século as mais antigas são as pontes ferroviária (concluída em 1905, salvo erro) e a ponte da Estrada Nacional 125 ou “Ponte do Séqua”, inaugurada em 1968.
Há mais pontes, eu sei, foram construídas mais três e uma delas era apenas para servir de solução provisória (Ponte das forças armadas), a Ponte das Salinas ou Ponte Nova, e a Ponte de Santiago ou simplesmente “Ponte Azul” (eu prefiro-lhe chamar “Ponte da Belafria”). Se contarmos a Ponte de São Domingos, que já está fora do perímetro urbano, são ao todo actualmente sete pontes (sem contar o viaduto da A22), mas que servia evidentemente para os moradores da Serra poderem atalhar caminho sem terem que descer toda a margem esquerda e internarem-se pelo sector “leste” da cidade para depois atravessarem a Ponte Romana e chegarem ao mercado. Sob esta última ponte ainda não consegui encontrar nada na bibliografia e a respeito do convento associado consagrado ao mesmo santo.
Relativamente à Ponte do Séqua, existe uma inscrição do próprio ano de inauguração à entrada da ponte:

JAE (1968)

Alguém me sugeriu (concretamente, o amigo Ofir Chagas), que consultasse o “Jornal Povo Algarvio” referente às datas entre 1966 e 1968. E assim fiz, desloquei-me à biblioteca municipal, da qual tenho cartão de leitor – biblioteca, aliás, ainda está em obras – pedi pelos volumes referentes àqueles anos e o que me puseram nos braços foi três capas volumosas com a compilação deste jornal para os anos referidos. Acontece que os exemplares do dito jornal não era já o papel original, mas apenas fotocópias. Não que isso diminuísse a qualidade da consulta e o meu propósito. Mas o papel das fotocópias é mais pesado que o papel de jornal, e o peso dos volumes das compilações eram bem pesados. Só estes três volumes anuais de jornal preencheram a capacidade disponível máxima dos meus braços para agarrar, de forma que quando entrei na sala de leitura tive sorte de um passante me abrir a porta por inteiro para eu poder passar porque, como disse, estava com os braços completamente ocupados com os ditos três volumes. Sentei-me ali logo nas primeiras mesas à direita que dão para o pátio, ainda em obras e que eram o pátio da antiga prisão, e depois de desarmar o laço que segurava as capas do ano de 1966, dei-me de caras com a edição de Ano Novo de 1966.
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O secretário-de-estado “Corte-Real”

Diogo de Mendonça Corte-Real, um tavirense secretário de estado de João V e personagem na série de TV “Madre Paula”.

Tenho acompanhado a par e passo a série a ser exibida na RTP às quartas-feiras Madre Paula, não só por se tratar de uma produção histórica, algo ficcionada baseada no romance homónimo de Patrícia Müeller sobre as aventuras amorosas do rei magnânimo João V no Convento de Odivelas, mas também pela presença do secretário-de-estado chamado apenas de “Corte-Real” durante a história. Acontece que o nome completo deste senhor é Diogo de Mendonça Corte-Real, e nasceu em Tavira a , 17 de junho de 1658 , na então conhecida por Rua da Mó Alta(Chagas, 2004)(1) e descendente de um ramo colateral (os “Mendonça Corte-Real”) do tronco original “Corte-Real” de Tavira do século XV(2).  Na série televisiva, o papel é desempenhado pelo actor Guilherme Filipe .

 


Este D. Diogo estudou leis em Coimbra e serviu de embaixador na Holanda (então  chamada “República das Províncias Unidas”) a Pedro II, pai de João V.

Portugal e a Holanda, viviam,  desde o início do século XVII, e com a criação da Companhia das Índias Orientais por parte dos holandeses, um estado de guerra quase permanente, conquistando muitas possessões portuguesas e fazendo pirataria ao nosso comércio marítimo. Por virtude de Diogo de Mendonça Corte-Real, os estados gerais da Holanda concederam em pagar uma indemnização de Oitenta mil patacas a Portugal.

Como prémio deste feito, Pedro II considerou movê-lo para embaixador em Espanha e por lá se manteve durante dez anos, até regressar a Portugal por virtude da Guerra de Sucessão Espanhola. Esteve envolvido por parte de Portugal nas negociações do tratado de Utreque, que pôs termos ao conflito e que da parte do Portugal ajudou ao reconhecimento da colónia portuguesa entre os Rios Amazonas e Oiapoque, para além da soberania da colónia do Sacramento, actualmente dentro do Uruguai.

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A Quinta d'El Rei

Oforalvelhotavira1266 primeiro foral concedido a Tavira por Afonso III (1266) consagrou a criação da chamada Quinta D’El Rey, que fazia parte do chamado Reguengo de Tavira que era o nome que se dava ao conjunto de todos os bens reservadas por sua majestade no texto do dito foral. Deste reguengo estavam também incluídos os pertences do anterior governante mouro de Tavira, Ibn Fabilah, para além das salinas, moinhos, lagares e vinhas do dito líder mouro.
Todos os bens produzidos nessa quinta eram pertença do soberano, e livres de impostos. O que aconteceu durante algum e até à venda da dita Quinta a particulares é que a Quinta foi sendo aforrada (ou concessionada) a diferentes individualidades, como Fernando Álvares Pereira (séc. XIV), irmão do famoso Nuno Álvares, e mais tarde a alguns elementos da família Corte Real original de Tavira, primos afastados do santo condestável (século XVI a XVII). Da família Corte-Real transitou para a Condessa da Calheta já no século XVII. Daqui foi doada às irmãs de Santo Alberto (Anica, 1993),  com convento em Lisboa, por via do facto da condessa ter entrado para o referido convento. Daqui transitou para outro proprietário, em 1771 pertence ao magistrado tavirense João Leal da Gama e Ataíde, ficando nesta família até 1854 quando a descendente a vende a José de Conceição Camacho e Luís António Teixeira Peres (Anica,1993). Estes por sua vez foram trespassando o terreno a outras individualidades, até que a Câmara a compra em 1960 , para dar início à urbanização daquela zona rural em plena cidade .
A fotografia que se divulga aqui dá conta do momento do actual Tribunal em Tavira, por volta dos anos 60, julgo. Como se pode bem ver, para além da omnipresença do telhado de tesouro, temos a construção de um edifício moderno, que se destaca, destinado a funções administrativas do Estado em plena zona verde da cidade.

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Construção da actual Casa da Justiça em Tavira (1960). Na foto podem-se ver as modernas ruas Silvestre Falcão (em frente) e a Rua Augusto Carlos Palma, com a qual a outra faz esquina. Do outro lado da rua haveriam de surgir as mordenas instalações da Telecom. Foto encontrada em https://www.pinterest.pt/libertex66/tavira-antiga/ .

O que ressalta sobretudo é uma ilha de casas modernas construída já durante o século XX que se encontra completamente rodeada pelo casario mais antigo que subsistiu na cidade. A Casa da Justiça de Tavira, o enorme prédio de dez andares que esteve anos por ser terminado do outro lado da rua Silvestre Falcão e que deixou um grande buraco à vista pelos alicerces durante o meio dos anos 80. Todas aquelas casas que vão até às traseiras do antigo Hospital do Corpo Santo (actualmente o colégio da Misericórdia) até à entrada principal do Quartel Militar da Atalaia pertenciam a este espaço agrário reservado a sua majestade, para Leste ele era limitado pela Rua do Montalvão e por Norte pelas casas que se vêm na foto, da antiga Rua Nova Grande, actualmente Rua da Liberdade.
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Uma costa que não sabe ficar quieta!

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Animação ilustrando 32 anos de movimentos costeiros das barras da Ria Formosa, de 1984 a 2016 (fonte: Google Earth Engine)

Do Ancão a Manta Rota, por essa costa fora, um areal praticamente contínuo estende-se como uma corda frouxa em arco perfeito protegendo zonas de sapal, canais de navegação e acessos a portos e docas de recreio. Estamos na Ria Formosa, alvo de protecção especial de acordo com os valores naturais que ostenta. Nas esta corda de areia não é perfeita, na realidade, ela é interrompida em seis pontos, originando um total de sete segmentos. Quatro destes pontos não ficam no mesmo lugar e movem-se para leste, os outros dois são fixos. Este complexo sistema dunar tem milénios de existência, terá começado após o fim da Última Glaciação há 15 mil anos e terá conhecido diferentes encarnações, sendo que os mais antigos foram sendo incorporados em terra firme, provocando o recuo do mar em contraposição ao avanço da costa.

As movimentações destes pontos que individualizam os segmentos ao longo de séculos tiveram consequências para o desenvolvimento das áreas urbanas no que toca às suas suas comunicações com o mar. Também determinaram a construção dos sistemas defensivos, de que são testemunho os fortes militares deixando pelo passar do tempo e outras construções, como os moinhos de maré ou as salinas.

O dinamismo do cordão dunar da Ria Formosa é de tal forma complexo que existe uma multiplicidade de estudos relativos relativamente à maneira de manter os ritmos naturais em harmonia com as necessidades, especialmente no que toca à necessidade manter a estabilidade dunar das ilhas barreiras e das comunicações para o mar relativas às actividades portuárias que têm lugar em diferentes locais neste sistema lagunar, sendo de destacar Tavira, Olhão e Faro e em menor escala Fuzeta, Santa Luzia, Cabanas e Cacela.

Em baixo um pormenor do vídeo que mostra a deslocação da Barra chamada do “Lacém” durante um período de 32 anos, de 1984 a 2016.

32 anos de movimentações da Barra que separa a Ilha de Cbanas da Península de Cacela (1984-2016)

BIBLIOGRAFIA: