Mapa de Tavira e seu litoral (1951)


Carta Militar do instituto geográfico do Exército de 1951, dez anos após o ciclone de 1941. Situação do Litoral entre Fuzeta e Cabanas na altura. É visível a Barra do Cochicho que abriu em consequência do ciclone. Os quebra-mares da barra artificial aberta em 1930 – e que ainda estão visíveis no mapa – marcam a posição dessa barra entretanto assoreada. 

O figueiral e a vinha dos netos do Corsário do Almargem

Monumenta Henricina é uma obra arquivística que consiste numa compilação de documentos arquivados, a maioria na Torre do Tombo, relativos à época dos Descobrimentos, e mesmo antes desta, ainda em período medieval, no que se poderia chamar de período pré-expansão portuguesa. Foi compilado nos anos 60 pela Universidade de Coimbra . Todos os seus catorze volumes estão disponíveis online tanto no Google Books como no archive.org . Já aqui referi alguns documentos relativos à família Franca que se estabeleceu em Tavira por volta de fins do século XIII, começando por Lançarote da Franca que teria acompanhado Manuel Pessanha na sua vinda para Portugal e, dizem alguns é o Lanzarote Malocello que figura nos anais da História que redescobriu as Canárias para os europeus. Este Lançarote seria genovês, tal como o primeiro almirante da Marinha Portuguesa, e dedicar-se-ia tanto à defesa das costas portuguesas como ao corso. As duas coisas naqueles tempos não estavam separadas.

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Os topónimos mais antigos da freguesia: Almargem

Já foi feita referência ao topónimo mais antigo da freguesia histórica da Conceição: Gomeira, mas existem outros topónimos igualmente antigos na freguesia, e um deles é o Almargem, que dá o nome à ribeira do mesmo nome que separa a freguesia da Conceição da freguesia histórica de Santa Maria e que surge em mapas muito antigos, pelo menos desde o século XVI. A ideia do presente texto é dar uma ideia de todas as menções existentes em mapas e documentação referente a este topónimo.

No que toca à etimologia do topónimo Almargem, é escusado dizer que não pode deixar de ter origem árabe por causa da sílaba inicial al- . De acordo com o Dicionário de Arabismos na Língua Portuguesa [1] vem de al-marj que significa “prado”,”pastagem” ou “terreno plano”.  É possível que na passado  almargem fosse usado como palavra na língua quotidiana do dia-a-dia, com os significados enumerados antes. Ora o baixo Almargem,  corre num vale que consiste numa grande várzea ladeando as margens da ribeira antes da sua foz. Na verdade, a várzea é um banco de aluvião, composta por sedimentos largados pela ribeira em momentos específicos de inundações em que o curso de água suplanta as suas margens habituais.

Tenho portanto andado muito curioso em investigar a origem do topónimo “Almargem” que, para além de se referir ao vale definido pela Ribeira do mesmo nome e o segundo maior curso de água do concelho de Tavira, define a fronteira entre a freguesia de Tavira e a de Conceição, sendo este traçado bem antigo e que advirá da altura da fundação da freguesia no século XVI. Arriscar-me-ia a dizer que será o traçado de fronteiras mais antigo do concelho de Tavira (a seguir à fronteira das freguesias urbanas de Santa Maria e Santiago, que vem do tempo da conquista cristã – agora unidas depois de 750 anos). A Ribeira do Almargem também é o maior curso de água com caudal que encontramos para quem depois de cruzar o Guadiana entra em Portugal. A Ribeira de Cacela e outros pequenos cursos de água (Álamo, Lacém, Junco, Canada… ) não chegam a ser ribeiros com grande leito…. incapazes o suficiente de impedir uma força de cavalaria de o cruzar (ou “saltar”). A Ribeira do Almargem desagua na Ria Formosa e nos quilómetros finais o seu vale alarga de tal modo que podemos estar perante o que seria no passado um largo estuário que entraria bastante por terra adentro (sendo possível que tivesse existido um estuário comum Gilão/Almargem, onde os dois cursos de água desembocariam). Esse possível cenário em tempos primevos foi discutido numa exposição do Museu de Tavira há vários anos (ver Tavira e os Patrimónios do Mar)[2].

Entre Balsa/Tavira e os povoados mais antigos de maior importância (Castillah/Cacela e Baesuris/Castro Marim) haveria de existir uma via de comunicação terrestre porventura desde o tempo dos romanos e existe uma ponte antiga muito para jusante no vale (a cerca de dois a três quilómetros da foz). Esta ponte velha está classificada como imóvel de interesse público e ainda actualmente está ao “serviço”, com algumas limitações óbvias (proibição de cargas superiores a 15 t na ponte).

Agora no que toca a referências a esta ponte e ao topónimo no acervo histórico, diria que é até interessante. Passemos a referi-las nos parágrafos seguintes.

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[1] Alves, Adalberto. 2013. Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa – Adalberto Alves – Google Livros. Edited by da Moeda, Imprensa Nacional Casa. 1 ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda. . link
[2] v.a. de Tavira), (Museu. 2008. “Tavira, Patrimónios do Mar” by Museu Municipal de Tavira – issuu. Tavira. . link

A “Mama Gorda” vista do mar

Tive oportunidade de ir navegar pela costa próxima do Sotavento, e ver “finalmente” o “Cerro da Mama Gorda”. Aqui deixo a foto para servir de testemunho da minha e obrigado ao amigo Armindo Conceição por me convidar a acompanhá-lo na sua embarcação de pesca. Para juntar o ouro ao azul, estive numa zona do mar chamada precisamente de “Mar da Mama Gorda”, conhecida pela sua abundância de peixe.

Fica então aqui uma foto com a “sra. Mama Gorda”, conhecida desde há séculos pelos mareantes que deambulam por esta conta desde fenícios, gregos, romanos, vândalos, mouros e finalmente, portugueses.

Cabanas coroada pela Mama Gorda
O Cerro da Mama Gorda é a elevação central da cordilheira da Serra de Tavira. Foto obtida a poucas milhas da costa. O casario é da vila de Cabanas de Tavira.

 

A “mama gorda”

Actualização: Tive oportunidade de ir navegar pela costa próxima do Sotavento, e ver “finalmente” o “Cerro da Mama Gorda”. Fica aqui o post referente com as fotos do dito “cerro”.

Quando se navega a poucas milhas da costa, esta apresenta relevos que podem ser usados pelos navegantes como pontos de referência. Aqui na Costa Algarvia do Sotavento, a colina sobranceira mais próxima do mar é sem dúvida o Cerro de São Miguel que, dos seus perto de 400 metros de altitude, é praticamente visível em terra e no mar, provavelmente conhecido desde tempos imemoriais quando imensos povos percorreram estes mares, e as suas embarcações nunca perdiam a costa de vista.
Muito provavelmente, a estes relevos notáveis eram atribuídos nomes e provavelmente dedicados a divindades relacionadas com o vento ou outras(e.g. Cabo de São Vicente, considerado Promontorium Sacrum pelos romanos). No caso do Cerro de São Miguel, também chamado de Monte Figo na antiguidade, baptizando a serra de constituição calcária do qual o Cerro é a sua elevação mais importante, um artigo da autoria do geógrafo Luís Fraga da Silva já discute a importância que essa elevação representaria para os navegadores na antiguidade clássica.
O tema que quero apresentar hoje é referente a uma expressão usada para indicar a “Serra de Tavira” partir do mar desde, pelo menos, o século XVII, quando “Mama Gorda” aparece em pelo menos dois livros, um da autoria do geógrafo português Luís Serrão Pimentel e mais tarde por seu filho Manuel Pimentel :

Entre estes cerca de 30 anos vemos e entre pai e filho que foram ambos cosmógrafos reais de Portugal há de assinalar mais pormenores em comum do que as diferenças: em primeiro lugar, Tavila passa a chamar-se Tavira . E, em segundo lugar, em 1712, Manuel Pimentel assinala a dificuldade da entrada no Porto de Tavira devido à existência de barras cuja localização se encontra constantemente em movimento (facto referido mais tarde por Sande de Vasconcelos nas notas das suas cartas de Tavira). Mas os nomes dos pontes de referência relativos aos relevos são os mesmo: Monte Figo, Monte Pequeno (Cerro da Cabeça, a leste do Cerro de São Miguel), e novamente a tal “…Mama Gorda, a qual serra vay correndo ate Crastomarim“, e neste ponto o texto do filho Manuel Serrão é “ipsis verbis” o do pai. Impõe-se então aqui um mistério a resolver, qual seria o monte conhecido pelos mareantes como “Mama Gorda”? Ora, se Monte Figo e Monte Pequeno não oferecem lugar a dúvidas, então a que monte corresponderá a tal “Mama Gorda” assinaladas por Serrão pai e filho !?

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