Henrique Correia da Silva (?1560?-1644)


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A personalidade de que vou biografar neste artigo não tem nenhum monumento à altura do desempenho que teve na história de Portugal, e, nomeadamente, do Algarve. A única coisa que encontrei mais parecido com uma homenagem o facto de dar o nome a uma rua em Lagos, e pouco e nada mais.

Desde que o descobri pela primeira vez nos livros do capitão Anica, enquanto alcaide de Tavira e mais tarde governador do Algarve, e vindo referido noutras fontes, referindo que ele haveria acompanhado o cortejo funerário de um corpo que supostamente seria da malogrado D.Sebastião desde o Algarve até Lisboa, em 1581, logo a seguir à entrada de Filipe II de Castela para o trono português.

O que é curioso a respeito de Henrique Correia da Silva, é que ele esteve presente nos dois momentos em que Portugal perdeu e readquiriu a sua independência, para além de ter estado presente na batalha fatal, Henrique Correia da Silva foi alcaide-mor de Tavira – sucedendo ao pai –  e já perto dos oitenta anos recebeu o cargo de governador geral das Armas do Reino do Algarve, nomeado pelo último Filipe rei de Portugal. E, apesar de prestar vassalagem ao último Filipe, foi ele que acabou por aclamar o duque de Bragança como o primeiro rei de Portugal restaurado na cidade de Lagos.

O assunto que me leva a escrever aqui é que ele dos poucos que esteve presente em todos estes momentos do pior e do melhor que aconteceu na nossa história: e soube sobreviver sessenta anos debaixo do domínio castelhano (ou devia dizer filipino?) primeiro como alcaide de Tavira por via hereditária e mais tarde capitão-mor de Mazagão, vindo a sobreviver o tempo suficiente para poder ver o seu país libertado do jugo de Castela.

Tive depois mais tarde oportunidade de conhecer melhor esta personalidade  após ter deitado a vista a um exemplar da obra Cartas dos Governadores do Algarve (1637-1663), compiladas pelo arquivista e historiador olhanense Alberto Iria . Após uma consulta mais atenta, fiquei com a impressão que a referida compilação devaria chamar-se ao invés Cartas dos Correias da Silva enquanto Governadores do Algarve (1637-1640 e 1657-1663), visto que aparecem apenas as cartas de Henrique Correia da Silva enquanto foi governador no período até a restauração da independência e algumas poucas mais tarde quando foi agraciado pelo novo rei João IV com o cargo de Vedor da Fazenda (uma espécie de “ministro das finanças” da época,) onde se manterá até à sua morte, em 1644, com 84 anos talvez, idade bem avançada para o século XVII.
O segundo período corresponde ao das cartas do filho Martim Correia da Silva assume as mesmas funções do pai enquanto governador do Algarve. Entretanto, outras individualidades, como Vasco de Mascarenhas, Francisco de Melo, Martim Afonso de Melo, e Nuno de Mendonça, conde de Vale de Reis) assumiram o mesmo cargo e por esta ordem durante a Guerra da Restauração e não aparecem cartas por eles assinadas (ver nota 3).

Após folhear a referida compilação de cartas e ter oportunidade de tomar contacto com a ortografia do século XVII, onde os “v” se escreviam como “u”, deparo-me com uma personalidade que fez tudo para defender o Algarve das ameaças que pairavam sobre ela após uma revolta na região contra o julgo castelhano de 1637 acompanhando a revolta do Manuelino em Évora, foi nomeado governador por Filipe IV e soube negociar correspondendo-se com o duque de Medina Sidónia (4), o conde-duque de Olivares e o secretário de Portugal Diogo Soares (que era uma espécie de ministro do governo castelhano dedicado apenas aos afazeres do reino de Portugal governado pelos castelhanos).

Neste ponto, teve coragem para pedir e negociar a retirada do exército castelhano do Algarve, que o duque de Medina Sidónia (que era o nobre mais poderoso da vizinha Andaluzia), porventura seguindo ordens de Olivares, pretendia manter a título permanente e ao mesmo tempo impôr o desarmamento dos regimentos portugueses do Algarve, evitando desta forma futuras revoltas.

Quando em 11 de Dezembro de 1640 recebeu em Lagos a notícia da insurreição palaciana de Lisboa que culminou com a restauração nacional, ele recorda (op.cit.):

Chegada a felisisima e dezeiada noua da aclamação del Rey Nosso Senhor a recebeo com taes effectos de alegria que se uio nelle ser obra do Ceo, porque chegando-lhe a carta a 11 de Dezembro as onze horas da noite, as seis da manhã estaua Sua Magestade [João IV] aclamado, appos hũa missa dito ao Espírito Santo, e a poucos mais dias (…) Logo que aclamou a Sua Magestade mandou acudir com a mais gente que lhe foi possíuel ha villa de Crastro Marim fronteira de Ayamonte, porque naquele principio corria muito perigo, e para melhor cumprir com todas as obrigações de bom vasalo de Sua Magestade lhe mandou dar conta da idade em que se achaua porque parecendo a sua Magestade que com ella podia satisfazer aos trabalhos da guerra (…)

Foi com um misto de nostalgia e euforia que Henrique Correia da Silva recebeu a notícia da restauração, e decidiu, mesmo João IV ainda não tendo sido entronizado (o que aconteceu apenas uns poucos dias depois, a 15 de Dezembro) tomou a liberdade de ir imediatamente guarnecer o castelo de Castro Marim com o apetrecho necessário para fazer frente para o que aí haveria de vir.

Este trecho que citei faz parte do documento 318 pela numeração que Alberto Iria deu dentro da compilação e foi escrito por Correia da Silva já era vedor da Fazenda em gesto de memorando para sua majestade dos serviços feitos a Portugal ao longo de 80 anos de vida. O tom com que o escreve chega a soar melodramático, com parágrafos de melancolia misturados com grades euforia, dignas de feitos épicos. Poderia citar aqui todo o documento, mas ele é longo demais para o tamanho dos artigos que pretendo para este blog. No documento 319 seguinte (pp. 249-251 das referidas Cartas) temos aquilo que parece ser um testamento e o resumo da história da família, começando pelo seu bisavô Martim Correia.

No que toca a esse aspecto, os Correias da Silva, embora não sendo originários de Tavira no princípio, provêm do casamento de Martim Correia em 1450 com Leonor da Silva. Martim Correia era guarda-mor do Infante D.Henrique e a ele tinham sido entregues as terras onde se situava a Torre da Murta, uma torre de menagem medieval que defendia a linha de fronteira primitiva com os mouros que atravessava Ferreira do Zêzere. Desse casamento nasceu o primeiro Henrique Correia da Silva, 2º senhor da dita torre. Do casamento com Joana nasceram sete filhos tendo o primogénito Ambrósio Correia da Silva herdado o título de senhor da dita torre enquanto que o irmão mais novo (o “secundogénito”) , Martim como o avô, aparece como alcaide-mor de Tavira. E aparece como ? Devido ao casamento deste Martim com Maria de Meneses, filha de Bernardo Corte-Real, bisneto do primeiro Vasco Anes Corte-Real alcaide de Tavira. Até este Bernardo, os Corte-Real tinham mantido na linha varonil a titularidade da alcaidaria. Terá havido um trato implícito de ceder esse título fruto do casamento de Martim Correia da Silva com a filha de Bernardo, o último Corte-Real alcaide da cidade. É deste casamento que nasce o nosso biografado. Desta forma, o nosso biografado, era descendente dos Corte-Real por via materna.

Não queria terminar com o outro momento trágico da vida de Correia da Silva, na sua juventude esteve na batalha fatal e o facto de

foi hua das 9 pessoas que El Rey D. Phellippe escolheo para trazerem e acompanharem o corpo do Senhor Rey D. Sebastião que Deos aya da cidade de Faro ao conuento de Belen, a saber, Francisco Barreto de Lima veador da Caza, D. Lourença dAlmada, D.Lucas de Portugal, filho de D.Francisco de Portugal veador da Fazenda e estribeiro mor, Rui Lourenço de Tauora visorrey da India, Jeronimo Monis filho de Febo Monis semilher del Rey, Diogo da Silua regedor de Portugal, D. João de Castro presidente de Lixboa, D. Francisco de Castello Branco irmão do Conde de Sabugal D. Duarte, e Anrique Correia da Silva alcaide mor de Tauilla

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Assinatura de Henrique Correia da Silva consoante vem reproduzida em (2)

Referências e notas

(1)Iria, Alberto – Cartas dos Governadores do Algarve (1637-1663) -ed. Academia Portuguesa de História (Lisboa,1978).

(2)Cabreira, António – Cinco Heróis da Restauração (Lisboa,1940)

(3) Para uma lista completa dos governadores militares do Algarve ver (Anica,1993), e que vem reproduzida aqui.

(4) Por acaso cunhado do novo rei João IV, uma vez que a sua irmã foi a futura rainha Luísa de Gusmão.

Agradecimentos

Ao Ricardo Tomás, por me te emprestado esta obra documental necessária para se entender o papel do Algarve nesta época-chave da nossa história que foi a Guerra da Restauração.