Uma união de freguesias mas a Santa já não vem a Cabanas

Venho por esta via manifestar a minha estranheza para com o facto de mais uma vez este ano não se ter efectuado o trajecto da tradicional procissão no dia 8 de Dezembro, feriado devotado à padroeira nacional, Nossa Senhora da Conceição, com a procissão desde o local de repouso da imagem, na Igreja Paroquial até à vila de Cabanas. Há registos de que a procissão incluía a descida até à marginal de Cabanas, e se fazia todos os anos desde tempos imemoriais… mas isso terminou. E terminou desde o ano passado. Mas no ano passado ainda encetaram uma “visita” nocturna pouco anunciada uns poucos dias antes do dia feriado em Cabanas.

Traseiras do Igreja. Possível localização do primitivo cemitério.


Mas este ano nem isso sucedeu, viu-se uma procissão muito lânguida, mais curta que o habitual, sem a saída de outros imagens de santos como o São Luís e o São Sebastião, como era costume.
Diz o diz que disse que a Santa da Conceição se zangou com os cabanenses e é ciumenta, por eles terem decidido devotar-se a uma nova virgem, Nossa Senhora do Mar, cujas “Festas dos Pescadores” se realizam em Agosto. E por isso a Padroeira Nacional prefere dar a cara apenas aos seus devotos que moram no lugar outrora conhecido  por “Sítio da Igreja”.

A Conceição, nesses tempos, era o nome a toda a área da freguesia e representava todos os paroquianos da freguesia, desde os Ebros, Bemparece, Carrapateira, Estorninhos e Faz-Fato,  nos limites mais setentrionais das serranias da freguesia, Corte António Martins, para leste e Currais Boeiros, para oeste, o mar e o “Sítio da Praia” (e que veio ser Cabanas), para sul. No meio disto tudo, para os lugares que não tinham a sorte de ganhar um topónimo, chamava-se e ainda se chama a Gomeira, o nome mais antigo e esquecido que vem do tempo em que as terras teriam pertencido à Ordem dos Cavaleiros de Santiago de Espada, cujo dístico ainda figura no frontão da Igreja Paroquial. Não era o nome do local aonde todos rumavam e que se foi constituíndo à beira da Estrada Real (a actual Estrada Nacional 125) e não era um só lugar geográfico, e que pelos vistos ganhou o nome da Santa e que dava nome a toda a freguesia/paróquia (antigamente os dois termos eram sinónimos). O mesmo fenómeno passou-se no desenvolvimento do povoado hoje conhecido por Vila Nova de Cacela, que cresceu também em volta da Estrada Real onde se foi agregando o povo que antigamente vivia disperso pelas fazendas do outrora concelho de Cacela que tinha sede onde está a “velha” Cacela. 
Pois agora a senhora da Conceição ficou ferida no seu zelo e prefere apenas mostrar-se aos seus vizinhos fiéis, aqueles que moram mesmo ao lado da sua morada, que nos cadernos paroquiais era conhecido antigamente apenas por “Sítio da Igreja”. Quanto ao resto da freguesia da Conceição, é freguesia, mas desse resto a Santa já não quer saber. Principalmente em  Cabanas, onde pelos vistos arranjaram outra santa.

Longe vão os tempos em que se escutava o estrondo dos foguetes logo de manhã cedo, a banda percorria logo às nove da manhã todo o trajecto que de tarde a procissão haveria de seguir. O que é que mudou !? Quem é que teve a bela ideia de “inventar” uma “Nossa Senhora do Mar” para Cabanas !? A Senhora da Conceição não ouvia as preces dos pescadores !? E sinceramente, actualmente o cartaz da festa pré-natalícia, de fim de outono, de homenagem à Padroeira Nacional mais parece uma repetição do modelo das festas dos santos populares de início de Verão.

Isto é apenas um ponto e vista, de alguém que gostava que as tradições não deviam morrer, nunca. O problema é que mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e as santas também.